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INFORMATIVO CEAL/APMP n. 151
HC n.º 89.837/STF
LEGITIMIDADE DE INVESTIGAÇÃO CRIMINAL PELO MINISTÉRIO PÚBLICO.
A CEAL/APMP vem informar que a
Segunda a Turma do Supremo Tribunal Federal julgou o HC
n.º 89.837, reconhecendo, por unanimidade, a legitimidade
constitucional do Ministério Público em relação ao poder
investigatório em matéria penal.
A ementa do acórdão segue abaixo:
“20/10/2009 SEGUNDA TURMA
HABEAS CORPUS 89.837 DISTRITO
FEDERAL
RELATOR : MIN. CELSO DE MELLO
PACTE.(S) : EMANOEL LOUREIRO FERREIRA
IMPTE.(S) : JASON BARBOSA DE FARIA E OUTRO(A/S)
COATOR(A/S)(ES) : PRESIDENTE DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA
E M E N T A: “HABEAS CORPUS” –
CRIME DE TORTURA ATRIBUÍDO A POLICIAL CIVIL – POSSIBILIDADE
DE O MINISTÉRIO PÚBLICO, FUNDADO EM INVESTIGAÇÃO POR ELE
PRÓPRIO PROMOVIDA, FORMULAR DENÚNCIA CONTRA REFERIDO AGENTE
POLICIAL – VALIDADE JURÍDICA DESSA ATIVIDADE INVESTIGATÓRIA
– CONDENAÇÃO PENAL IMPOSTA AO POLICIAL TORTURADOR - LEGITIMIDADE
JURÍDICA DO PODER INVESTIGATÓRIO DO MINISTÉRIO PÚBLICO
– MONOPÓLIO CONSTITUCIONAL DA TITULARIDADE DA AÇÃO PENAL
PÚBLICA PELO “PARQUET” – TEORIA DOS PODERES IMPLÍCITOS
– CASO “McCULLOCH v. MARYLAND” (1819) – MAGISTÉRIO DA DOUTRINA
(RUI BARBOSA, JOHN MARSHALL, JOÃO BARBALHO, MARCELLO CAETANO,
CASTRO NUNES, OSWALDO TRIGUEIRO, v.g.) – OUTORGA, AO MINISTÉRIO
PÚBLICO, PELA PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA, DO PODER
DE CONTROLE EXTERNO SOBRE A ATIVIDADE POLICIAL – LIMITAÇÕES
DE ORDEM JURÍDICA AO PODER INVESTIGATÓRIO DO MINISTÉRIO
PÚBLICO – “HABEAS CORPUS” INDEFERIDO.
NAS HIPÓTESES DE AÇÃO PENAL PÚBLICA, O INQUÉRITO POLICIAL,QUE
CONSTITUI UM DOS DIVERSOS INSTRUMENTOS ESTATAIS DE INVESTIGAÇÃO
PENAL, TEM POR DESTINATÁRIO PRECÍPUO O MINISTÉRIO PÚBLICO.
- O inquérito policial qualifica-se
como procedimento administrativo, de caráter pré-processual,
ordinariamente vocacionado a subsidiar, nos casos de infrações
perseguíveis mediante ação penal de iniciativa pública,
a atuação persecutória do Ministério Público, que é o verdadeiro
destinatário dos elementos que compõem a “informatio delicti”.
Precedentes.
- A investigação penal, quando
realizada por organismos policiais, será sempre dirigida
por autoridade policial, a quem igualmente competirá exercer,
com exclusividade, a presidência do
respectivo inquérito.
- A outorga constitucional de
funções de polícia judiciária à instituição policial não
impede nem exclui a possibilidade de o Ministério Público,
que é o “dominus litis”, determinar a abertura de inquéritos
policiais, requisitar esclarecimentos e diligências investigatórias,
estar presente e acompanhar, junto a órgãos e agentes policiais,
quaisquer atos de investigação penal, mesmo aqueles sob
regime de sigilo, sem prejuízo de outras medidas que lhe
pareçam indispensáveis à formação da sua “opinio delicti”,
sendo-lhe vedado, no entanto, assumir a presidência do
inquérito policial, que traduz atribuição privativa da
autoridade policial. Precedentes.
A ACUSAÇÃO PENAL, PARA SER FORMULADA, NÃO DEPENDE,NECESSARIAMENTE,
DE PRÉVIA INSTAURAÇÃO DE INQUÉRITO POLICIAL.
- Ainda que inexista qualquer
investigação penal promovida pela Polícia Judiciária, o
Ministério Público, mesmo assim, pode fazer instaurar,
validamente, a pertinente “persecutio criminis in judicio”,
desde que disponha, para tanto, de elementos mínimos de
informação, fundados em base empírica idônea, que o habilitem
a deduzir, perante juízes e Tribunais, a acusação penal.
Doutrina. Precedentes.
A QUESTÃO DA CLÁUSULA CONSTITUCIONAL DE EXCLUSIVIDADE E
A ATIVIDADE INVESTIGATÓRIA.
- A cláusula de exclusividade
inscrita no art. 144, § 1º, inciso IV, da Constituição
da República - que não inibe a atividade de investigação
criminal do Ministério Público - tem por única finalidade
conferir à Polícia Federal, dentre os diversos organismos
policiais que compõem o aparato repressivo da União Federal
(polícia federal, polícia rodoviária federal e polícia
ferroviária federal), primazia investigatória na apuração
dos crimes previstos no próprio texto da Lei Fundamental
ou, ainda, em tratados ou convenções internacionais.
- Incumbe, à Polícia Civil dos
Estados-membros e do Distrito Federal, ressalvada a competência
da União Federal e excetuada a apuração dos crimes militares,
a função de proceder à investigação dos ilícitos penais
(crimes e contravenções), sem prejuízo do poder investigatório
de que dispõe, como atividade subsidiária, o Ministério
Público.
- Função de polícia judiciária
e função de investigação penal: uma distinção conceitual
relevante, que também justifica o reconhecimento, ao Ministério
Público, do poder investigatório em
matéria penal. Doutrina.
É PLENA A LEGITIMIDADE
CONSTITUCIONAL DO PODER DE INVESTIGAR DO MINISTÉRIO PÚBLICO,
POIS OS ORGANISMOS POLICIAIS (EMBORA
DETENTORES DA FUNÇÃO DE POLÍCIA JUDICIÁRIA) NÃO TÊM,
NO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO, O MONOPÓLIO DA COMPETÊNCIA
PENAL INVESTIGATÓRIA.
- O poder de investigar compõe,
em sede penal, o complexo de funções institucionais do
Ministério Público, que dispõe, na condição de “dominus
litis” e, também, como expressão de sua competência para
exercer o controle externo da atividade policial, da atribuição
de fazer instaurar, ainda que em caráter subsidiário, mas
por autoridade própria e sob sua direção, procedimentos
de investigação penal destinados a viabilizar a obtenção
de dados informativos, de subsídios probatórios e de elementos
de convicção que lhe permitam formar a “opinio delicti”,
em ordem a propiciar eventual ajuizamento da ação penal
de iniciativa pública. Doutrina. Precedentes.
CONTROLE JURISDICIONAL DA ATIVIDADE INVESTIGATÓRIA DOS
MEMBROS DO MINISTÉRIO PÚBLICO: OPONIBILIDADE, A ESTES,
DO SISTEMA DE DIREITOS E GARANTIAS INDIVIDUAIS, QUANDO
EXERCIDO, PELO “PARQUET”, O PODER DE INVESTIGAÇÃO PENAL.
- O Ministério Público, sem prejuízo
da fiscalização intra-orgânica e daquela desempenhada pelo
Conselho Nacional do Ministério Público, está permanentemente
sujeito ao controle jurisdicional dos atos que pratique
no âmbito das investigações penais que promova “ex propria
auctoritate”, não podendo, dentre outras limitações de
ordem jurídica, desrespeitar o direito do investigado ao
silêncio (“nemo tenetur se detegere”), nem lhe ordenar
a condução coercitiva, nem constrangê-lo a produzir prova
contra si próprio, nem lhe recusar o conhecimento das razões
motivadoras do procedimento investigatório, nem submetê-lo
a medidas sujeitas à reserva constitucional de jurisdição,
nem impedi-lo de fazer-se acompanhar de Advogado, nem impor,
a este, indevidas restrições ao regular desempenho de suas
prerrogativas profissionais (Lei nº 8.906/94, art. 7º,
v.g.).
-
O procedimento investigatório instaurado pelo Ministério
Público deverá conter todas as peças, termos de declarações
ou depoimentos, laudos periciais e demais subsídios probatórios
coligidos no curso da investigação, não podendo, o “Parquet”,
sonegar, selecionar ou deixar de juntar, aos autos, quaisquer
desses elementos de informação, cujo conteúdo, por referir-se
ao objeto da apuração penal, deve ser tornado acessível
tanto à pessoa sob investigação quanto ao seu Advogado. - O regime de sigilo, sempre excepcional,
eventualmente prevalecente no contexto de investigação
penal promovida pelo Ministério Público, não se revelará
oponível ao investigado e ao Advogado por este constituído,
que terão direito de acesso – considerado o princípio da
comunhão das provas – a todos os elementos de informação
que já tenham sido formalmente incorporados aos autos do
respectivo procedimento investigatório.
A C Ó R D Ã O
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os
Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Segunda Turma,
sob a Presidência da Ministra Ellen Gracie, na conformidade
da ata de julgamentos e das notas taquigráficas, por
unanimidade de votos, em indeferir o pedido de “habeas
corpus”, nos termos do voto do Relator. Falou, pelo Ministério
Público Federal, o Dr. Wagner Gonçalves. Ausente, justificadamente,
neste julgamento, o Senhor Ministro Cezar Peluso.
Brasília, 20 de outubro de 2009.
CELSO DE MELLO – RELATOR“
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