Ferreira Pinto: ‘Alckmin busca dividendo político com ameaça do PCC’

Ex-secretário de Segurança Pública diz que o ex-procurador-geral de Justiça Fernando Grella sabia sobre as escutas da investigação do PCC: ‘Era ele que fazia’

Em entrevista publicada na quinta-feira, 31/10, pelo jornal Valor Econômico, o procurador de Justiça aposentado e ex-secretário estadual de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto afirma, sobre a suposta ameaça de morte feita pela facção criminosa PCC ao governador Geraldo Alckmin (PSDB): “O governo diz: ‘Não vou me intimidar’. Ele está aproveitando para colher dividendos políticos.” Em outro trecho, Ferreira Pinto afirma que Fernando Grella, ex-procurador-geral de Justiça e atual secretário estadual de Segurança Pública, sabia sobre as escutas da investigação do PCC: “Essa escuta tinha como principal protagonista o próprio Ministério Público. Porque era ele que fazia”.

Veja alguns trechos da entrevista:

Valor Econômico – Por que a investigação [contra o PCC] apareceu agora?

Ferreira Pinto – As escutas começaram em 2006. Ao longo dos anos resultaram em 86 volumes de documentos e mais 800 apensos só de escutas.

Valor Econômico – Então o senhor tinha domínio dessas escutas?

Ferreira Pinto – Depois que eu saí, um jornal de grande circulação publicou que o secretário [Fernando Grella] desativava uma central de telefone. É uma inverdade tão grande que eu lamento que o secretário não tenha colocado as coisas no devido lugar. Ele era o procurador-geral de Justiça. Ele foi três vezes lá cumprimentar o pessoal que fazia as escutas. E ele não veio a público dizer, inclusive, que essa escuta tinha como principal protagonista o próprio Ministério Público. Porque era ele que fazia.

Valor Econômico – Grella conhecia essa investigação a fundo?

Ferreira Pinto – Por uma ironia do destino, aquele que era o responsável maior, como procurador-geral, acabava de assumir o cargo de secretário de Segurança Pública. Ele tinha obrigação de vir a público e dizer que a escuta não era ilegal e que ele tinha plena ciência, tanto que foi lá três vezes cumprimentar o pessoal pelo trabalho desenvolvido. Como eu, o procurador também tinha conhecimento desses fatos.

Valor Econômico – Como viu a ameaça de morte ao governador?

Ferreira Pinto – Veja, um deles, que é proeminente da facção [refere-se à Marcola, líder do PCC], disse que a facção diminuiu a taxa de homicídios. Isso é fanfarronice. Foi assim que o governo classificou, e está certo. Agora, quando um outro preso disse que ia “decretar”, que na gíria significa que vai matar o governador, não é fanfarronice? Foi no mesmo contexto, em 2011. Aí vem o governo e diz: “Não vou me intimidar”. Ele está aproveitando para colher dividendos políticos.