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(Editorial do Jornal da Tarde, publicado no
dia 15/2/00, página 3A
Telhado de vidro
Embora alguns de seus integrantes às
vezes exorbitem de suas funções, como aconteceu na invasão
do apartamento do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes e
na recente tentativa de impedir o leilão do Banespa, o saldo
de realizações do Ministério Público Federal é expressivo.
Desde que sua independência foi assegurada pela Carta de 88,
ele teve uma atuação decisiva no impeachment do ex-presidente
Fernando Collor e na apuração dos escândalos da
Comissão de Orçamento da Câmara e dos precatórios.
E atuou de forma positiva para a abertura e a continuação
de inúmeras outras investigações e processos de óbvio
interesse público.
Isso açulou vários políticos
a tentar esvaziar essa autonomia. A ofensiva mais explícita é a "Lei
da Mordaça", espertamente incluída por alguns parlamentares
no projeto da reforma do Judiciário. Mas outras iniciativas,
menos explícitas, mas não menos mal-intencionadas, também
têm sido tomadas com objetivo idêntico.
Uma delas prevê que a escolha do chefe
do Ministério Público Federal poderá recair sobre
um pessoa estranha à carreira de promotor, com base na indicação
do chefe do Executivo. Outra estabelece que as promoções
dos procuradores também passem a ser determinadas por ele. As
duas emendas, ambas propostas pelo PSDB, representam um retrocesso
institucional, pois, se forem aprovadas, o fiscalizado terá a
prerrogativa de escolher e promover seus fiscalizadores.
Com isso, o Ministério Público
teria o mesmo destino dos Tribunais de Contas, integrados por políticos
sem voto e amigos de chefes do Executivo. Apesar de contar com auditores
a seu serviço, ministros e conselheiros desses tribunais simplesmente
não têm coragem de votar contra os interesses de quem
os indicou para um cargo repleto de mordomias.
Os autores das duas emendas as justificam
alegando que o Ministério Público está "distanciado" dos
demais poderes, como se isso fosse o contrário do desejável
num regime que se define não só por esse distanciamento,
mas pelo permanente zelo para que ele seja tão grande a ponto
de garantir a independência entre os Três Poderes, Executivo,
Legislativo e Judiciário.
Os responsáveis por essas emendas,
como se vê, estão agindo à semelhança das
prostitutas. Como sua atividade é ilegal, muitas fazem trottoir
com habeas-corpus preventivo na bolsa. Conscientes de que a corrupção é ilegal,
nossos políticos, por prevenção, estão
tentando esvaziar o órgão encarregado de denunciar essa
ilegalidade. |