O PASSEIO DE MEURSAULT

O PASSEIO DE MEURSAULT

 

Walter Paulo Sabella*

 

Sol a pino. O dia transcorre quente. Um passeio a pé, após o almoço me leva até ali. Detenho-me bem próximo ao prédio da Associação Comercial de São Paulo, que exibe, numa das paredes externas, o grande painel do impostômetro, mecanismo que registra, em velocidade vertiginosa e incessante, a voracidade fiscal do Estado brasileiro (mas isto será assunto de outra crônica).

À minha frente, a rua Boa Vista, na qual estacionam alguns carroções de catadores de papelões, inclusive sobre as faixas reservadas às bicicletas, embora escassos os ciclistas que pedalam na área.

À minha direita, sob o viaduto, barracas improvisadas, dezenas delas, nas quais se empilha toda sorte de produtos à venda, de calçados a brinquedos, além de ambulantes, cujas vozes rouquenhas disputam a atenção dos passantes.

À minha retaguarda, o Pátio do Colégio, onde se instalam algumas tendas de moradores de rua, com seus trapos estirados sobre os gradis circundantes; no centro desse espaço primacial da cidade, o monumento em cujas bases de concreto se incrustam figuras de indígenas, clérigos e colonizadores, estes últimos metidos nas vestimentas da época. Quanto aos indígenas, alguns, de carne e osso, permanecem no local, quatrocentos anos após a chegada dos jesuítas; são indiazinhas, com suas crianças, cercadas de objetos artesanais próprios de sua cultura, esparramados pelo chão, expostos à indiferença dos transeuntes, que preferem ipads e iphones, mas as pobres criaturas não atinam com isso. E nem poderiam. Afinal, sob alguns aspectos, linhas estruturais de sua individualidade pouco se distanciam do período em que Anchieta foi refém dos tamoios. Um estudo orientado por dados antropológicos e históricos mostraria quão verdadeiro pode ser o que se afirma. Os transeuntes, diuturnamente, são milhares, mas, para eles, as indiazinhas e suas crianças continuam invisíveis.

Para chegar ao ponto em que me detenho e me entrego às divagações, bem próximo, passo por dois grandes e belos edifícios, nos quais, os frontispícios exibem, majestáticos, a palavra ‘Justiça’. Num deles, Secretaria da Justiça, noutro, Tribunal de Justiça. Nos sites de busca da rede mundial de computadores, essa palavra se inclui em milhões de ocorrências; em apenas um desses sites, 111.000.000 (cento e onze milhões de vezes). Constituem esses indicadores estatísticos motivo de esperança ou frustração? Seria preciso acessar cada um deles para obtenção da resposta? Guiados pelo mais puro empirismo, sob o impulso exclusivo da intuição, despiciendo qualquer critério técnico, sabemos as respostas para as duas indagações.

Recuando alguns passos a partir de meu posto de observação, andando rente às tendas dos ‘sem-teto’ e bem perto das indiazinhas com suas criancinhas seminuas, e seu acervo de cuias, cestinhos de palha trançada, pequenos arcos e flechas ornamentais e algumas penas coloridas, chego à porta da Capela de Anchieta, e, ali, sofreio o passo para ler a inscrição no grande capacho de entrada: “Aqui se entra para louvar o Senhor e se sai para amar os irmãos”. Após rápida permanência no interior do templo, tendo elevado às alturas o louvor possível a uma alma semelhante à minha, dou meia-volta em direção à porta, sem reler a inscrição no largo tapete ante o qual me detivera momentos antes. Lanço os olhos rumo à direita, onde estão os irmãos –os moradores de rua e as indiazinhas- e tomo a direção oposta. Na estreita rua Roberto Simonsen (antiga rua do Carmo), de um lado, uma das Casas com a inscrição da palavra ‘Justiça’, do outro, o local onde fora erguida, nos primórdios do século XVI, em taipa de pilão, a casa número 1, hoje restaurada, o Beco do Pinto, que permitia descer da colina às margens do Tamanduateí, e o Solar da Marquesa de Santos, onde morou Domitila de Castro a partir de 1834 até seu falecimento, em 1867. A restauração do solar, preservando linhas arquitetônicas originais, impede que se diluam as derradeiras facetas de um tempo tragado pelo giro dos calendários.

O mégalo-urbanismo, que avançou célere ao longo dos anos, chegando a ocultar o desenho topográfico de Piratininga, transformou a paisagem. Houve tempos em que, à distância, era possível constatar que o cenário de meu passeio pós-almoço, é uma colina entre os rios Anhangabaú (rio das assombrações, ou dos malefícios) e Tamanduateí (rio dos tamanduás verdadeiros) em ramo linguístico tupi.

Meu passo apressado, com o intento de finalizar o passeio é interrompido pelo encontro com um grupo de seis ou sete homens negros e jovens, trocando, entre si, palavras de um dialeto desconhecido. Senegaleses? Congoleses? Nigerianos? Quem saberá? Há uma diáspora de africanos em São Paulo; há diáspora de venezuelanos no extremo Norte; há diásporas de desesperados em toda parte.

Uns fogem das minas que produzem mutilados nas savanas da África; outros tentam escapar ao regime de Nicolás Maduro; outros, ainda, empreendem fuga do cenário apocalíptico das terras de Bashar Al-Assad; muitos abandonam as regiões em que o Estado Islâmico implantou seu califado.

As citações valem como amostragem. A lista seria extensa. No planeta loteado à força das armas e afogado no sangue de etnias múltiplas circulam parcelas itinerantes da humanidade, orientadas por cartografias baldas de portos. São multidões em fuga, mas ninguém foge de países; foge de governos, ou de quem assim se intitula, ou de outros homens, que também se acham abrangidos pela inscrição no capacho da capela. Nos tempos medievais, fugia-se também das pestes, oriundas da inexistência de saneamento, que periodicamente dizimavam populações; hoje, o terror que causavam foi substituído pelo pavor disseminado por integrantes da mesma espécie dos que partem como nômades.

Voltando ao grupo de homens negros, um deles, aparentemente o mais moço, em português sofrível, puxa parte (só parte) de um documento do interior de um grande envelope e formula perguntas; decifro que se acha em busca de um cartório. Minha tentativa de ver o documento por inteiro, para prestar ajuda, é frustrada pelo gesto protetivo de recuo das mãos com o envelope. A desconfiança e o receio, naquelas jovens vidas sem pátria, estampam-se nos olhos atentos. Eu explico, eles seguem. Integram o rol dos irmãos que devem ser amados, como está inscrito à porta de entrada do templo.

Os carroções, as barracas de lona e seus artigos de qualidade contestável, as tendas dos homens sem casa, as indiazinhas com os artesanatos de seus ancestrais, as Casas de Justiça, a Casa dos Louvores ao Senhor, o amor aos irmãos, os homens africanos à procura do tabelionato, tudo, nas entranhas da mente, ingressa numa espécie de dança confusa, fluindo a passos irregulares, infensos a qualquer harmonia rítmica.

Imerso nesses pensares, melhor diria, tragado pela arritmia caótica dessa dança mental, retomo o percurso de retorno, ainda sob o sol a pino, tentando cobrir a cabeça com uma das mãos, com a outra estendida sobre os olhos, formando uma espécie de viseira protetiva contra os raios solares. Visita-me a memória o personagem narrador de Albert Camus, o insensível e infeliz Meursault que, indagado sobre o motivo do homicídio que cometera, deu como justificativa os efeitos do sol quente sobre a cabeça.

Quem leu “L’Etranger”, publicado em 1942 e traduzido para mais de quarenta idiomas, ou quem viu a adaptação cinematográfica feita por Luchino Visconti, de 1967, haverá de ter lembrança dessa passagem. O romance integra, com um ensaio (Le Mythe de Sisyphe) e uma peça (Calígula), o que se conhece como o ‘ciclo do absurdo’ de Camus.

Talvez não seja necessário o mergulho reflexivo na trilogia do grande escritor para um encontro com a absurdez e o insólito. Basta um giro a pé, após o almoço, pelas ruas de qualquer metrópole.

O mégalo-urbanismo faz mais em prol da criação abundante de absurdos do que os gênios da literatura juntos, pois todos os dias, entre os paredões de concreto, aço e vidro dos arranha-céus que nos dividem, tudo muda e nada muda; entre as trilhas de toneladas de lixo distribuídas nos sacos plásticos negros que se entulham nas calçadas ao entardecer, recobertos pela fuligem do dia, tudo muda e nada muda; na atmosfera das ruas, impregnadas pelo monóxido das máquinas que se congestionam como formigueiros mecanizados, tudo muda e nada muda.

E assim é porque o mégalo-urbanismo, com suas vastidões pluripolarizadas, na verdade, não passa de mais um filho do tempo. Este, que teve outras crias primevas, como o nomadismo, os aldeamentos, tem, no ciclo em curso, as conurbações tentaculares, possuidoras de pontos em comum com o processo de metástase do campo biológico. O tempo, este, de fato, opera as mudanças. Muda tudo. Mudará o homem?

Se a pergunta fosse dirigida a Meursault, qual seria sua resposta? Suponho que Meursault, arquétipo de uma parcela de todos nós, não se importaria em responder e daria de ombros.

*O autor é procurador de Justiça, com licenciatura plena em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Atuou no radiojornalismo e na imprensa escrita. Membro da Academia Brasileira de Direito Criminal.