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APMP entrevista Beatriz Helena Ramos Amaral

Procuradora de Justiça aposentada e doutoranda em comunicação, escritora produziu artigo sobre a cantora Clara Nunes, além de outras obras literárias

Em entrevista à APMP (Associação do Ministério Público), a Procuradora de Justiça aposentada Beatriz Helena Ramos Amaral falou sobre a relação entre literatura e atividade jurisdicional. A escritora, ensaísta, poeta, contista e musicista contou que alguns dos seus personagens são baseados nas observações das “características psicoemocionais que compõem testemunhas, réus, funcionários públicos, advogados, magistrados e membros do Ministério” com os quais trabalhou como Procuradora de Justiça.

Além da influência da arte e de sua paixão pela música, demonstrados nas pesquisas e resenhas publicadas, como “Clara Nunes: Ética e Sensibilidade Incomum”, que pode ser lida na íntegra aqui, Beatriz Amaral enfatizou que “a obra de Clara possui singularidades que a inserem num lugar único na nossa música e na nossa cultura”.

Beatriz é doutoranda em comunicação e semiótica pela PUC-SP e mestre em literatura e crítica literária pela mesma Universidade. Veja, a seguir, a entrevista na íntegra.

APMP: como começou a escrever?

Beatriz Helena Ramos Amaral:  comecei a escrever muito menina, logo depois de me alfabetizar. Eu inventava personagens, criava histórias, construía muitos diálogos. E depois queria representar. Desenhava muito e lia histórias em quadrinhos. Eu era uma grande leitora de livros e ia muito com minha mãe ao cinema e ao teatro infantil. Também gostava de tirar livros de sua biblioteca, sem saber do que se tratava e foi assim que “descobri” Edgard Braga, Cecília Meirelles, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Aos doze anos, escrevi meu primeiro poema e fui fisgada pela poesia, jamais parei. Aos quinze anos, escrevi um romance, publicado em 1980. Em seguida, publiquei cinco volumes de poesia seguidos, Encadeamentos, Primeira Lua (em colaboração com Elza A. Ramos Amaral), um livro de contos que se chama “Os Fios do Anagrama”. Seguiram-se um livro de contos, um ensaio biográfico, um livro jurídico com artigos, teses, pareceres. Cada um deles teve, naturalmente, seu próprio processo de criação, seu ritmo, suas necessidades estéticas.

 

APMP: como é o seu processo de criação das obras?

Beatriz Helena Ramos Amaral: lembro-me hoje com muito carinho do processo de construção do livro “Encadeamentos”, que é de 1988 e é uma publicação de Massao Ohno Editor, é composto de 65 (sessenta e cinco) fragmentos poéticos. Eu sentei-me sobre o carpete da sala com as páginas soltas com as páginas datilografadas e as estendi sobre o chão. É meu terceiro livro e começa a definir minha linguagem. Trabalho muito com a espacialidade, o silêncio, o ritmo, as pausas. Mudei alguns poemas muitas e muitas vezes de lugar. Este procedimento foi inesquecível para mim. Por ter sido principalmente muito lúdico. “Encadeamentos” faz parte de uma trilogia.  O meu ensaio biográfico “Cássia Eller: canção na voz do tempo”, que é de 2002 e foi publicado pela Escrituras Editora, teve um processo completamente diferente dos outros. Primeiramente, mergulhei nos CDS, aprendi o repertório, toquei suas canções, senti a vibração.  Depois, fiz pesquisas e entrevistas. Pesquisas realizei nos arquivos dos jornais: Folha, Folha da Tarde, Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e revistas. Entrevistei Nando Reis, Péricles Cavalcanti, Luiz Brasil, Arnaldo Antunes, Waly Salomé, João Viana, entre outros.  E fiz pesquisa fonográfica. Este período durou 7 meses e meio. Depois, eu sentei-me em meu escritório e escrevi o livro em 8 dias. E pude me dedicar à revisão com calma. Foi o meu primeiro livro. Quando escrevi o meu romance, eu ouvia música – jazz, instrumental – e repetia a mesma faixa árias vezes. Tudo para manter o clima, a atmosfera. Eu manuscrevia um capítulo por dia.

APMP: essa paixão pela música a levou a escrever e pesquisar sobre a Clara Nunes?

Beatriz Helena Ramos Amaral: em 2002 fiz meu Mestrado em Literatura e Crítica Literária, na PUC-SP.  Quando li o livro de memórias escrito pela irmã de Clara, Maria Gonçalves Silva e Josemir Nogueira Teixeira, recém-publicado pela editora carioca Jaguatirica, muitos focos de interesse se conectaram. Em primeiro lugar, a própria música, arte que sempre norteou minha vida. Estudei violão erudito (clássico) desde os 8 anos, fiz conservatório e cursei Faculdade de Música. Sou fascinada por muitos momentos da música de concerto – música medieval, renascentista, barroca, impressionista e contemporânea. E também sou fascinada pela música popular brasileira, a nossa MPB, rica e belíssima, a mais bela do mundo. Cresci ouvindo bossa-nova (que eu amo!), samba, samba-canção, baião, pois minha mãe, que foi pianista clássica, também tocava violão popular. E tocava muita música brasileira. Eu comecei a me interessar pelos discos, pelos álbuns ainda muito nova. Aos 4 anos, queria ouvir, aprender e cantar. Ouvíamos Nara Leão, Chico, Roberto Menescal. A música sempre me alimentou. Entre os artistas brasileiros que ouvi em minha juventude, está Clara Nunes, ao lado de Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina, Tom Jobim, Toquinho e Vinícius, Francis Hime, Caetano Veloso, Ivan Lins, Marcos Valle, Joyce, Milton Nascimento, MPB4, Paulo César Pinheiro, Quarteto em Cy, Gal Costa, Eduardo Gudin, Lô Borges, Nélson Ayres, César Camargo Mariano, estes em especial.

A obra de Clara possui singularidades que a inserem num lugar único na nossa música e na nossa cultura. Artista de possibilidades vocais ilimitadas, com tessitura vocal privilegiada e timbre maravilhoso, ela não se contentou em simplesmente construir uma carreira. Tornou-se pesquisadora da cultura brasileira autêntica, conheceu e estudou a fundo todas as centenas de ritmos musicais do Brasil. Estudou a cultura de origem afro. Artista à frente de seu tempo, construiu uma trajetória completamente voltada para os direitos humanos, a igualdade, a diversidade de crenças, a tolerância religiosa, a valorização das etnias negra e indígena, que, juntamente com a europeia, formam o povo brasileiro.

Embora não tenha sido a única a dar voz às minorias, fez desta meta o núcleo central de seu percurso estético e nele perseverou por toda a sua breve, mas fulgurante vida (1942-1983). E se destacou como uma das maiores intérpretes brasileiras de todos os tempos, alcançando projeção internacional, gravando muitos álbuns individuais no exterior e também representando o Brasil em muitos países, entre os quais Japão, Suécia, Alemanha, França, Estados Unidos, Inglaterra, Portugal, Espanha, Argentina, Itália, Venezuela.  Foi aclamada por artistas, críticos, jornalistas e maestros internacionais. Clara sempre teve uma presença cênica forte e um completo domínio de palco. Também estudou dança afro por cinco anos. Criou uma imagem visual inconfundível, única. Tornou-se a maior vendedora de discos do Brasil. Foi a primeira mulher a vender mais de duzentos mil discos. E há outro ponto muito importante que os amigos e colegas ressaltam e do qual o livro de memórias traz muitos exemplos: sua ética, sua perseverança, sua generosidade, sua delicadeza. Considero este aspecto humano muitíssimo relevante, pois nossa era tem se caracterizado pelo excesso de culto ao ego, pela vaidade, e pela competitividade, características inadequadas que só geram vazio e nada constroem.  Clara soube criar e aprofundar seus laços com os amigos, com a família e com seu vasto público, que até hoje a segue em grupos, redes e ouve com imensa alegria as interpretações de sua voz de cristal.

Esta minha resenha “Clara Nunes: Ética e Sensibilidade Incomum” está na capa do jornal literário linguagem viva. Também já escrevi sobre o belo documentário “Clara Estrela”, dirigido por Susanna Lira e Rodrigo Alzuguir. Minha apreciação crítica está na Revista Germina – de Literatura e Arte. É muito importante que as novas gerações ouçam os discos de Clara, vejam suas performances, conheçam o DVD, os clips, as entrevistas.

APMP: e o livro “O Avesso do Arquipélago”?

Beatriz Helena Ramos Amaral: o meu livro mais recente é “O Avesso do Arquipélago” e foi editado em Lisboa em 2019. Foi o primeiro livro que escrevi utilizando predominantemente os meios tecnológicos. Ele foi escrito quase todo no celular. Alguns poemas foram manuscritos, naturalmente. Escrevi predominantemente à noite, pois sou notívaga.  Trabalhei com a polissemia e com a plurissignificação.  Eu pensava nos arquipélagos que conheço, especialmente o de Abrolhos, que já visitei por duas vezes e muito me encantou. Lancei o livro há exatamente um ano, (…) na Livraria Barata, em Lisboa, tendo dois escritores portugueses a comentá-lo e também o lancei no Projeto Zénite “Leituras de A a Z” e também num grande Festival Cultural no arquipélago de Açores, na Ilha Terceira e no Salão do Livro na Fundação Casa de Macau. Concedi entrevistas em rádio e em jornais, foi uma viagem interessante para minha literatura. Eu já havia lançado dois outros livros lá – “Peixe Papiro” e “Os Fios do Anagrama” – que foram editados no Brasil. O Avesso do Arquipélago o primeiro de meus livros editado em Portugal.

APMP: qual a intersecção entre sua atividade profissional como Procuradora de Justiça e a escrita literária?

Beatriz Helena Ramos Amaral: (…) um dos aspectos que destaco, na origem do estudo de literatura e direito, é o fato de ambos pertencerem ao Trivium (pensando na separação entre Trivium e Quadrivium). As fronteiras são muitas e vários mestres e pesquisadores de universidade já começam a atuar nesta linha de conexão.

No meu caso, como operadora do Direito por três décadas e escritora, existem conexões particulares, que posso ressaltar aqui: a) a existência de alguns personagens do ambiente jurídico nos contos; b) essência de realismo mágico no ambiente jurídico; c) alguns elementos relacionados à justiça e à ética. Também trouxe para alguns de meus textos personagens, pessoas que conheci e situações que vivi ou assisti na minha longa trajetória na atividade jurisdicional. O que sempre observei foi o conjunto de características psicoemocionais que compõem testemunhas, réus, funcionários públicos, advogados, magistrados e membros do Ministério.

Meu livro “Os Fios do Anagrama” (2016, 2017, RG Editores, está em 2ª edição) têm vários contos com personagens e histórias que assisti como membro do Ministério Público. Evidentemente, com a transfiguração realizada pela arte, que é alquímica e transmutadora. Eu também tenho um livro de poemas, “Alquimia dos Círculos” (Escrituras, 2003) que traz situações por mim vividas. Construído com alto teor de figuras de linguagem e um grande conjunto de símbolos.

APMP: qual o significado da escrita para a senhora?

Beatriz Helena Ramos Amaral: a literatura é arte, em primeiro lugar. Arte. Aponta para o horizonte estético.  É a beleza. E, de acordo com o que profetiza o escritor, filósofo e jornalista Dostoiévski, “a arte salvará o mundo”. É linguagem e é forma de expressão. É também autônoma, independente de outros ramos do conhecimento, como a história e a filosofia.  A noção de literatura de nosso tempo remonta aos pensadores do “Círculo Linguístico de Moscou”, ao pensamento crítico e às análises realizadas no início do século XX, que considera a obra literária uma obra de arte e, para a compreensão de sua natureza, foi erigida a literiedade como sendo o elemento capaz de distinguir um texto uma obra verdadeiramente literária de um outro texto meramente referencial.

Para mim, a escrita é um ato que me permite “ser e estar no mundo” ter meu porto e meu oceano, meu domicílio e meus próprios instrumentos. É um modo de linguagem, é a expressão de tudo o que penso, crio e construo. É uma forma de aprender e apreender o mundo. Escrever é dar sentido ao mundo. É dar direção ao mundo. É dar sentido e direção ao caos. É navegar em direção ao outro. Escrever é comunicar. É abrir as asas para o voo.  Escrever é saber, é inventar, descobrir e revelar.

 

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