AEROTÁXI -  Darly Viganó

 

                   Não faz muito tempo, refletindo sobre os   progressos da ciência e da tecnologia,  concluí que os avanços no campo dos transportes, nos últimos anos, estavam bem mais defasados em comparação  com os notáveis progressos das comunicações. Tinha em mente que, se para falar com amigo do outro lado do mundo bastava-me simples toque no celular acomodado em meu bolso, para ir de carro do Morumbi à Lapa, na Capital do Estado, levava pelo menos meia hora. Vejo, contudo, que ultimamente têm sido grandes os avanços também na área de transportes, o que contraria aquela minha primeira e precipitada conclusão. Com efeito, pude ver, em programa de televisão, o protótipo de aerotáxi, que nada mais é do que enorme “drone” ao qual foi acoplada cabine para transporte de passageiros. Com ele, de um lado a outro da grande metrópole não se levaria mais do que alguns minutos.

                   É evidente que ainda se está muito longe da utilização comercial desse revolucionário veículo, qie por certo será cada vez  mais aperfeiçoado, como foram os primeiros carros, hoje somente vistos com muita  curiosidade em museus. Comparados com os carrões de hoje, capazes de desenvolver altas velocidades e dotados de muito conforto, estão mais para as carruagens da Idade Média ou os poéticos tílburis dos romances de Machado de Assis.

                   A crescente preocupação com o meio ambiente e a consciência cada vez mais aguda das causas do já visível aquecimento da Terra, em que a queima de combustíveis fósseis aparece como um dos principais fatores, têm levado cientistas e técnicos a buscar fontes alternativas não poluentes para a movimentação de veículos. Daí surgiu a idéia dos carros elétricos, dotados de grandes baterias hoje bem mais eficientes e duráveis do que as primeiras. As hélices dos “drones”, inclusive as daquele protótipo de aerotáxi, também são movimentadas por tais baterias aperfeiçoadas.

                   E o grave problema dos acidentes de trânsito, cada vez mais frequentes dado o grande número de veículos em circulação e o despreparo de muitos condutores, também levaram técnicos e cientistas, em todo o mundo, a  criar carros inteligentes, capazes de ir de um ponto a outro, mesmo em rodovias de tráfego intenso, sem motorista algum a choferá-los.

                   Contudo, mesmo esses carros inteligentes não são imunes a acidentes com vítimas. Imagine-se que, por falha do sistema de monitoramento, um deles atropele transeunte na faixa de pedestres. A responsabilidade civil solidária do fabricante e do proprietário não oferece dificuldade jurídica alguma. Mas, de quem seria  a responsabilidade penal pela configurada culpa em sentido estrito? Também do fabricante e ou do proprietário? Ou de ninguém pela ausência de previsibilidade? Está aí uma “vexata quaestio” a ser dirimida pelos doutrinadores.

                   Conversando com a esposa sobre essas modernidades, afiançou-me ela que ainda espera possuir carro elétrico e inteligente – isso se me sobrarem recursos para comprá-lo, por evidente  – ou  seja, sem motorista. “Sabe, benzinho” – deu para perceber, meus amigos, como essa mulher me ama? – “com ele eu não precisaria estar a toda hora aborrecendo você ou consultando o  Waze  para ir, nos fins de semana, a  uma diferente igreja da cidade”. Na mesma hora percebi   que ela não está mais acreditando em  minhas habilidades choferísticas. Que vocês acham, caros leitores?

                                                      Darly Viganó

                                          darly.vigano@gmail.com